sexta-feira, 20 de abril de 2012

Via Láctea

Final da década de 90. No descampado em frente minha casa/escritório na Ponte Grande, dezenas de crianças brincam! A maioria empina pipa. Ao fundo, a Vila Industrial, no meio o Rio Tietê. Da laje superior observo, sem perder de vista, meu filho que brinca entre eles. - "Quando vejo um menino empinando pipa"... São muitas! Serpenteiam inquietas dos dois lados do rio. Quando o vento sopra para cá, as pipas da Ponte são perseguidas, quando para lá, as da Vila. Disputa intensa, competição acirrada. Gritos, assovios, correria. Manobras ousadas, impensáveis, inesperadas. Os dois lados contam com controladores exímios. Entre eles, um diferenciado, uma espécie de Neymar da pipa. Laçava a 200 metros de distância, tirava a pipa da sua mão! Fez isso comigo que, distraído, amarrava a rabiola, o Lucas com cinco ou seis anos... Fez sem maldade, só para que eu notasse sua maestria. Na hora não entendi assim... Deu vontade de correr atrás, mas estava muito longe... e quem pegava o moleque! Mas eu o admirava! Seu nome era Anderson, apelido "Boi". Era um predador temido! Mesmo o Artur, outro craque, o respeitava. O Lucas, o Caio, o Baiano, o Thiago, menorzinhos, ficavam de "quebrada", só aprendendo...


Foram nesses momentos de observação contemplativa que percebi a correspondência que havia entre o ato de empinar pipa e o Sanyasi, o asceta, o buscador espiritual. Ambos, crianças... Praticantes brincantes na arte da leveza, no silêncio interior, na meditação. Exercitam-se em campo aberto, desprendidos, expostos sob a luz do sol. Sem temer a queda, entregam-se por inteiro. Tanto um quanto outro, no êxtase do momento, não vê o perigo. Focados tem um só objetivo: estar no ar em equilíbrio!


Quando vejo um menino empinando pipa sei que é um ato de liberdade, um ritual de passagem, aprendizado, o simples na totalidade! Sabedoria ancestral: nada na cabeça, tudo no lugar!


PS: Atualize-se! Nesses tempos onde a imagem se projeta como uma pipa virtual através das linhas quânticas do não espaço/tempo cibernético, alheia às dimensões do continuum real, uma sugestão: dá um tempo, maluco! Vá empinar pipa! É a melhor das terapias. Mas vai limpo, sem a droga do cerol, é claro!


Namastê (abril/2012)




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Via Láctea


Quando vejo um menino empinando pipa
Dandolin dando linhassim na terrassim no céu
Aparando nuvens, desbicando estrelas, cometas...
Junto espaço-tempo, giro o carrossel
No Sol, a vontade, o coração comanda
e manda, busca...
Salta horizontes... de horizontes... ao montes!
Urbe, via láctea, galáxia
Terra, nave mãe!
Nada na cabeça tudo no lugar


Quando vejo um menino empinando pipa
Dandolin dando linhassim na terrassim no céu
Brilha o sentimento no olhar alado, irado...
O sonho por um fio no fim do carretel!


Vibra o pensamento vento abre asas e vaza... sinistro
voa no infinito, de finitos, finitos...
Relo, rabiola, despenca a pipa solta no ar!!!
... nada na cabeça tudo no lugar





domingo, 8 de abril de 2012

Vida! O novo... de novo! (20/04/2003)


Há um novo tempo no velho esquema a ser vivido: carinho, afeto, família, libido!
Não pode ser esquecido o que não tem memória na história dos sonhos.
Fábulas, lembranças, emoções virtuais; a falta que nos faz... ser criança!
Tudo é igual e os eventos repetem-se. O homem parece caminhar a esmo.
No entando, nada é o mesmo e as criaturas conformam-se sob a mão do destino.
Via Láctea!
Não existem caminhos na Terra que não tenham sido traçados nos céus.
Desconfie quando seu grito não produzir eco.
É lógico que seu elo com a vida foi rompido.
Remova todo entulho dos seus desejos, quereres e saberes presumidos.
É no vazio da plenitude que o possível realiza-se!
Exponha-se à nudez de sua fé.
A energia propaga-se na porosidade dos corpos.
Abdique de todo controle e abandone-se diante do espírito.
O amor encontra-se invariavelmente além e aquém da vontade individual.
É um feito monumental e simultâneo: síntese da totalidade do ser universal.
Terra e água!
O menino cósmico dança no ventre da abóboda celeste.
O parto das estrelas repete-se na explosão do eterno presente.
A centelha imortal que habita no coração da existência, é a semente fecunda da beleza e da arte. E eu permaneço aqui e aqui, meditando minha parte. Como oleiro, amassando barro, alisando essências, criando formas: tocando o imponderável, consentindo o inviável, intuindo o sem sentido...
Absurdamente vivo, apesar de toda ciência!
Fogo e ar!
O vaso depurado queima, no forno da consciência.
E o que virá depois, quando o tempo sucumbir na infinitude do espaço?
Quando, na ausência da forma, a Divina Presença despedaçar os vasos e triturar os cacos e desatar os laços e desfazer os nós e revelar-se simplesmente?
O que será que virá?
Só poderá ser o que nunca deixou de ser o que é:
Vida... Mais vida. Sempre vida. Eternamente vida.


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Girassol
(1978)

Nada demais
Só o direito a vida!
A natureza, a liberdade,
e cultivar a paz,
resistir!
Livre de preconceitos posso criar
Primaveras primas.
Correndo à mata, à flora, à fauna,
amigos
Há prata na lua. Ouro no sol.
Na vida nua. No girassol.

Nada demais
Só o respeito a Terra
Às criaturas... à divindade...
E realizar o amor:
Repartir!
Livre de ressentimentos
Posso viver
Primaveras puras.
Correndo a mata... à flora... à fauna...
Amigos.
Há prata na lua. Ouro no sol.
Na vida nua. No girassol.
Nada demais. Só o direito. A vida.
A natureza. A liberdade.
E encontrar a paz
Existir!



quinta-feira, 29 de março de 2012

Mantra


E aí moçada!

O objetivo desse blog é editar músicas, textos, imagens sobre temas variados. De início com trabalhos próprios e aberto a colaborações, sugestões, críticas, perguntas.
Se é uma verdade virtual a frase: "quem não está na rede não existe", esse blog é um tipo de parto, um nascimento cibernético. Depois de 61 anos inexistindo, sou um recém-nascido que arrisca os primeiros passos nas infovias da rede abrindo os olhos no emaranhado de energias. Nesse espaço quântico, menino, como um ponto me arrisco... alongo... traço uma linha, conecto, busco contato, eu que me carrego dentro!
Por isso improviso girando na roda dos nascimentos, às vezes no alto, outras no baixo, quase sempre no meio... Com tanto espaço dentro e fora, sei: navegar é necessário! Existir, impreciso. Viver, desconhecido.
A linguagem é do sentimento. O instrumento, a música. A palavra, o símbolo. Assim é preciso um texto para configurar o contexto, taí! Mero pretexto para evocar o sensível... Úmida e tátil emoção na aridez do senso comum. Resta som, visão... utópica percepção do possível!

Um abraço e um pedaço.

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MANTRA

Eu não sei quem você é
Você não sabe o que eu sou
Eu não sei quem você é
Mas eu lhe desejo amor

Eu não sei quem você é
Você não sabe o que eu sou
Eu não sei quem você é
Mas eu lhe desejo amor

((VELLOSO))